terça-feira, 11 de setembro de 2012

UM DOS TEXTOS QUE MAIS GOSTEI DE ESCREVER (por estranho que possa parecer...)

Reproduzo aqui um texto publicado, há uns 6/7 anos atrás em http://belenensessempre.blogspot.com.
Fica amputado das imagens que o meu excelente Amigo Nuno Gomes tão bem e tão competentemente sabia pôr...mas aqui vai:
* * *

O DIA EM QUE BELÉM CHOROU
(ante-scriptum: Este episódio é só nosso,
muito nosso e só nosso. Por favor, poupem-me aos exercícios masoquistas de “O
Corunha também falhou um penalty no último minuto e se marcasse ganhava o
campeonato mas falhou”. A situação é diferente. Nós tínhamos o Campeonato ganho
e escapou-se-nos; o Corunha tinha o campeonato perdido, caiu-lhe a hipótese de
o ganhar, e não o aproveitou. A Belém o que é de Belém!)

As ruas de Belém – de Belém e da Ajuda,
particularmente as contíguas ao Estádio das Salésias – haviam-se coberto,
tinham-se engalanado de bandeiras, de colchas, de flores, e de símbolos e cores
azuis para o que deveria ser a festa do segundo título de Campeão Nacional do
Belenenses (a acrescer aos 3 títulos de Campeão de Portugal, que não podem ser
esquecidos, apesar de o Sistema o fazer!).

Mas, fatidicamente, aquele fim de tarde de um Domingo no fim de Abril de 1955
haveria de terminar não na festa sonhada e merecida mas num mar de lágrimas...
o dia em que Belém se encheu de lágrimas!

Por ironia do destino, foi a segunda vez que Belém assim se convulsionou de tristeza,
revolta e impotência, e a primeira fora 24 anos antes, com a morte daquele com
cujo nome, justamente, se baptizou o Estádio das Salésias, onde se viveu o
drama daquele 24 de Abril de 1955: José Manuel Soares “Pepe”.
Infelizmente, muitos dos que presenciaram aquele acontecimento já não estão
entre nós e, portanto, (já) não há assim tantos que tenham assistido ao vivo e
que, portanto, conservem na memória, tanto a dos sentidos como a da alma, o que
nós só podemos imaginar, com o que nos contaram, com o que lemos.
Mas... tentemos, sim, imaginar, tentemos situar-nos nessa tarde.

Faltam quatro minutos – só quatro minutos! – para terminar o último jogo desse
Campeonato Nacional; o Belenenses está a ganhar 2-1 ao Sporting, essa vitória
assegura-lhe o título, os verdes estão praticamente conformados, os jogadores da
camisola azul com a Cruz de Cristo trocam a bola entre si, guardam-na
(sobretudo o mestre Di Pace, exímio nisso, com a sua fina técnica), esperando o
apito final do árbitro. O Belenenses parecia irresistível: depois de um mau
começo de campeonato, uma arrancada extraordinária, uma grande sucessão de
vitórias, a chegada ao primeiro lugar, a sua manutenção, a vitória no último
jogo, frente a um rival forte, mais um título, a reafirmação da grandeza, da
força, da alma belenense...

E imaginemos, porque é assim que nos contam: as ruas cheias de flores,
bandeiras e colchas nas janelas e nas sacadas, em sinal de apoio, o clamor
“Belém! Belém! Belém!” (sempre o nosso grito de guerra, seja em raiva ou em
triunfo), os chapéus que se atiram ao ar em sinal de júbilo, os abraços que se
trocam, os foguetes que estalam à volta do estádio... E de repente, sem que
nada o fizesse esperar, numa jogada inverosímil, o Sporting empata, e oferece o
título ao Benfica... e os corações azuis estilhaçados, pelo menos dilacerados,
com a força do destino que nos atingiu tão duramente, como nunca fizera, nem
voltou a fazer, a nenhum outro clube Português!

O Belenenses não começara bem o campeonato e, à sétima jornada, já estava a
cinco pontos do Benfica. Após uma reaproximação, perdeu à 12ª jornada com o
Braga, em casa, ficando a quatro pontos do líder Benfica, e a três do Sporting
e do Braga (e, já agora, com um ponto de vantagem sobre o F.C.Porto).
Então, começa a cavalgada belenense, com vitórias seguidas, ambas fora, sobre o
Sporting (2-1) e sobre o Porto (1-0), na última jornada da primeira volta e na
primeira da segunda volta. Até ao final, foram 14 jogos seguidos sem perder,
com apenas três empates, incluindo o do último jogo, e também o que disputou no
recém-inaugurado Estádio da Luz (0-0), à 20ª jornada.

O Belenenses alcançou a liderança à 23ª jornada, vencendo o Sporting da Covilhã
por 4-0 enquanto o Benfica perdia por 3-0 com o F.C.Porto. Nas 24ª e 25ª
jornadas, com vitórias sobre o Lusitano de Évora (2-0, em casa) e sobre o Braga
(3-2, fora), o Belém manteve a liderança.
(Fica aqui a relação completa dos resultados desse campeonato, na sua
sequência por jornada:

Belenenses, 1 – F.C. Porto, 0;
Barreirense, 1 – Belenenses, 0;
Belenenses, 6 – Académica, 2;
Atlético, 2 – Belenenses, 2;
Belenenses, 1 – V. Setúbal, 2;
V.Guimarães, 1 – Belenenses, 3;
Belenenses, 1 – Benfica, 2;
Boavista, 1 – Belenenses, 1;
Belenenses, 4 – CUF, 1;
Covilhã, 1 – Belenenses, 2;
Lusitano de Évora, 1 – Belenenses, 2;
Belenenses, 2 – Braga, 3;
Sporting, 1 – Belenenses, 2;
F.C. Porto, 0 – Belenenses, 1;
Belenenses, 3 – Barreirense, 0;
Académica, 2 – Belenenses, 2;
Belenenses, 5 – Atlético, 2;
V.Setúbal, 0 – Belenenses, 1;
Belenenses, 3, V.Guimarães, 0;
Benfica, 0 – Belenenses, 0;
Belenenses, 6 – Boavista, 0;
CUF, 2 – Belenenses, 4;
Belenenses, 4 – Covilhã, 0;
Belenenses, 2 – Lusitano de Évora, 0;
Braga, 2 – Belenenses, 3...
e, por fim, o fatídico: Belenenses, 2 – Sporting – 2).
Assim, à entrada da 26ª e última jornada, e depois da vitória em Braga, o Belenenses estava em primeiro lugar com 38 pontos, o Benfica vinha a seguir com 37, o Sporting ocupa o terceiro
lugar com 36. Só o Belém dependia de si próprio para ser campeão. Sê-lo-ia
ganhando ao Sporting, ou até empatando, caso o Benfica, na Luz, não ganhasse ao
Atlético. O Benfica dependia do resultado do Belenenses. Poderia ser campeão
se, nessa última jornada, o Belenenses perdesse e eles empatassem ou se, como
aconteceu, ganhassem e o Belenenses empatasse. O Sporting ainda tinha hipóteses
mas muito remotas e dependentes dos outros dois. Para conquistar o título,
teria que combinar dois factores: ganhar ao Belenenses e esperar que o Benfica
perdesse.

E como foi essa última jornada? O Benfica ganhou ao Atlético por 3-0 mas
convencido de que tal vitória de nada lhe valia (na altura, quase não havia transístores
portáteis para ouvir os relatos). Porque, entretanto, o que se passava no
Estádio José Manuel Soares Pepe (Salésias)? Vamos relatar o essencial,
entremeando com alguns excertos do artigo escrito, no dia seguinte ao deste
jogo, por Vítor Santos, no jornal “A Bola”.

O jogo começou às 16 horas. Vítor Santos chegou às Salésias uma hora e meia
antes do jogo, e contou assim:

“... o campo, sobretudo do lado do peão, estava já quase cheio.
Pairava no ar um sussurro infernal, misto de alegria e expectativa. No rosto
dos adeptos do Belenenses lia-se a confiança na vitória...
De todos os lados continuavam a afluir vagas sucessivas de gente, que vinha
engrossar esse mar imenso de cabeças e bandeiras que emoldurava em grande gala
o Estádio das Salésias.
(...)
15:57 – O Estádio tremeu e viveu numa prolongada onda de aplausos durante
alguns segundos – talvez minutos – quando os rapazes da camisola azul subiram
as escadas de acesso ao terreno.
No ar estrelejaram foguetes e rebentaram potentes morteiros, a anunciar a todo
o bairro que ia começar a grande festa de Belém”.
O jogo começou da melhor maneira para nós. Logo aos 2 minutos, Perez marcou
para o Belenenses, após centro de Dimas. Escreveu Vítor Santos: “16:02 – Uma avançada, duas avançadas e, calmamente,
Perez faz anichar a bola no fim das redes de Carlos Gomes.
Verdadeiro momento de loucura colectiva, assinalado ruidosamente com foguetes,
morteiros, chocalhos e toda a espécie de instrumentos de fazer barulho!
Em todo o campo, os sócios e simpatizantes do clube, lágrimas nos olhos,
abraçavam-se. No próprio camarote da Direcção, o contentamento era bem
visível.No campo, Perez, o autor do golo desaparecia no meio dos seus companheiros,
tal era o desejo de todos em querer abraçar o ‘herói’ do momento. Alegria
nas Salésias..”.
Tudo bem encaminhado… até aos 17 minutos: Penalty contra o Belenenses por
alegada mão (muito duvidosa; o nosso Carlos Silva afirma claramente que o lance
foi acidental – ver gravura) e o empate para o Sporting.

Aos 31 minutos, o primeiro caso do jogo: Di Pace bateu o guardião sportinguista
mas o árbitro anula o golo por alegada mão do mestre argentino.

Aos 42 minutos, regressa a alegria: Matateu, de cabeça, após novo centro de
Dimas, volta a pôr o Belenenses a ganhar por 2-1. Nova e imensa explosão de
alegria nas Salésias!

Escreveu Vítor Santos: “Voltou a alegria e a esperança, que se manifestaram
em aplausos sem fim, gritos de entusiasmo e abraços efusivos”. E assim se
chegou ao intervalo.

Na segunda parte, mais dois ou três lances polémicos: um golo anulado ao
Belenenses, uma bola que esteve dentro da baliza sportinguista (como o seu
guarda-redes veio a reconhecer publicamente; ver adiante) e que o árbitro não
considerou golo e ainda um eventual penalty (não assinalado) sobre Matateu. UMA
VERGONHA!

O desafio corria célere para o final, e quase só se jogava no meio campo do
Sporting, que não criava qualquer jogada de perigo, enquanto o Belenenses
perdera já algumas oportunidades de fazer o terceiro golo.

Então, aos 86 minutos, houve um ataque do Sporting, através de um lançamento
longo, um defesa do Belenenses (Figueiredo, segundo ouvi contar) terá
escorregado, há um primeiro remate de um jogador do Sporting a tabelar num
defesa azul e a sobrar para Martins, que empatou, apesar da tentativa
desesperada de José Pereira.

Terminado o jogo, os jogadores belenenses ficaram muito tempo em campo,
incrédulos, muitos banhados em lágrimas, alguns prostrados no chão, em desânimo
e angústia.

E em lágrimas permaneciam ainda muitos já nas cabinas, num silêncio tremendo,
enquanto o nosso treinador Fernando Riera, segundo se contou no jornal “A Bola”
do dia seguinte, “bastante nervoso, media a cabina a passos largos,
pontapeando de quando em vez uma hipotética bola…”.

Segundo confessou 40 anos mais tarde em entrevista ao mesmo jornal,
arrependia-se de não ter feito recuar mais alguns jogadores, para segurar o
resultado. E à mesma distância, dizia: “De todo o coração, digo que o
Belenenses foi o meu primeiro e grande amor futebolístico”.Fernando Riera, na sua carreira, levou o Chile a um terceiro lugar num Mundiale foi campeão e finalista da Taça dos Campeões com o Benfica. A sua declaração é, pois, muito significativa.

No lado do Sporting havia alguém que, tendo cumprido o seu dever profissional,
tinha igualmente o coração despedaçado, porque era o azul de Belém que ele
amava: D. Alejandro Scopelli, o grande jogador belenenses dos anos 30 e 40, e
mais tarde, em 1972/73, o treinador que nos conduziu a um outro segundo lugar.

Após o jogo recusou-se a prestar declarações; à noite telefonou a Riera,
manifestando o seu pesar. No dia seguinte, foi procurar o seu amigo belenenses
Calixto Gomes e, com ar triste e abatido, pediu desculpa pelo sucedido! Três
dias depois, presta então declarações públicas, ao jornal “A Bola”. E fê-lo
nestes termos, que mostram bem por que equipa, no fundo do coração, ele
realmente torcia:

“A minha opinião é a de que o Belenenses adoptou o melhor sistema para a sua
equipa. A prová-lo está o facto de a sua baliza não ter, verdadeiramente,
passado por momentos de grande perigo. O golo de Martins saiu duma jogada
confusa. Com a vantagem de 2-1, os jogadores do Belenenses cobriram bem a bola
e lançaram bons contra-ataques que poderiam ter dado, sem favor, outro golo.
Creio, sinceramente, que o plano do jogo era o melhor e se o resultado tivesse
terminado 2-1, como podia ter acabado, todos agora elogiariam o sistema”.
E, a terminar, foi ainda mais claro: “Falei como profissional. Agora, no
aspecto sentimental, confesso que o resultado não foi o melhor e lamento muito
que o Belenenses, que tinha feito o bastante para ser campeão, não tenha
conseguido o seu objectivo”. Alejandro Scopelli, um belenenses eterno!
É impossível não pensar como teria sido o futuro do Belenenses se não tivesse
havido aquele acidente. Foi numa altura crucial e, por isso mesmo, muito má:
pouco depois consumar-se-ia o abandono das Salésias, em que tanto se investira
em termos de dinheiro, de esforço e de coração, abandono arbitrariamente
imposto por um alegado plano de urbanização que nunca se efectivou;
construiu-se, a partir de uma pedreira, o Estádio do Restelo (que valorizou
todo o espaço circundante, o qual passou a ser zona de luxo,
valorizando/inflaccionando em flecha os terrenos, com que a Câmara fez ricos
negócios de venda), e tudo o que se investiu no novo estádio deixou o clube com
uma dívida enorme que se tornou galopante, com terríveis consequências; estava
a chegar a época do verdadeiro profissionalismo, ainda que não tão “feroz” como
o de hoje; em breve viriam as competições europeias, com toda a projecção que
trouxeram aos clubes que nelas podiam brilhar, situação que o Belenenses não
teve condições de aproveitar.
Se tivesse ganho esse título, haveria um Belenenses mais forte para enfrentar
todos esses desafios, para continuar a ombrear lado a lado nas compitas com os
seus rivais tradicionais, especialmente os de Lisboa, isto é, o Benfica e o
Sporting.
Repare-se que se tivesse ganho aquele título, o Belenenses passaria a ter duas
vitórias num total de 17 campeonatos, ficando o Benfica com quatro, o Sporting
com nove e o F.C.Porto também com dois (se não considerarmos as quatro edições
experimentais da I Liga, com três títulos do Benfica e um do Porto): um
manifesto equilíbrio, embora com o Sporting, então, destacado.
E quem pode dizer o que seria o futuro do Benfica que, desde 1944-45, só tinha
sido campeão em 1949-50, indo os restantes campeonatos para o Sporting e o
Belenenses?

Tudo indica, pois, que hoje teríamos um Belenenses com mais força, com mais
sócios e simpatizantes (porque, queiramos ou não, mesmo num clube como o
Belenenses, são - também - as vitórias que trazem mais adeptos...), com mais títulos no
seu palmarés. Em contrapartida, não teríamos nos nossos anais esse episódio tão
único, simultaneamente tão triste e tão belo, que afinal também faz parte da
caracterização do Belenenses; nem teríamos talvez este tão entranhado
sentimento de amor feito de resistência, porque muito da nossa história é um
combate pela sobrevivência, contra as adversidades de todo o género.
Como escreveu um dia, num belo editorial, Alexandre Pais, ao tempo director do
Jornal do Belenenses:
“O evitar do cataclismo tem sido o milagre permanente deste clube nobre e
atormentado, tantas vezes infeliz”…
Entretanto... 50 anos depois (mais vale tarde que nunca...), ficou claro que
não foi apenas o infortúnio mas erro(s) da arbitragem que tirou aquele título
ao Belenenses.
No jornal “A Bola” de 23 de Outubro de 2004, o guarda redes sportinguista
naquele jogo, o grande Carlos Gomes, veio afirmar de modo inequívoco que num
dos lances polémicos (que faria 3-1 para o Belenenses), a bola esteve mesmo
dentro da sua baliza, claramente, pelo menos 25 centímetros (“mais
de um palmo”, segundo Carlos Gomes; “quase meio metro”, segundo
Carlos Silva) além da linha. Só que o árbitro não viu (?).

E assim se foi um título... com situações branqueadas durante cinquenta
anos!

O Belenenses precisa
de reajustar as suas contas com a história e, por respeito a todos os que
choraram nesse dia, e pelos que se comoveram, pelos anos fora, com esta
história bela e dramática – tão nossa e tão única – deve a si mesmo...
VOLTAR A SER CAMPEÃO!
Post-Scriptum: segundo o que ouvi contar, o
árbitro era cunhado de um dirigente do Benfica.