sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A PINGUINHA

Fico estupefacto com a quantidade de consócios (e com a quantidade de vezes) no Belenenses a dizer que fomos ambiciosos demais, que pretendemos dar o passo maior do que a perna, que quisémos tudo para amanhã...e que por isso gastámos loucuras e ficámos na ruína financeira.
Não nego, de modo algum, que em muitos casos se gastou excessivamente. No entanto, face àquilo que consumimos, só posso concluir que comprámos latão ao preço de ouro, e que houve incúria (entregando-nos a empresariozecos) ou inércia, conduzindo à necessidade de contratar quando já se está na fase do salve-se quem puder, incluindo as catrefadas de entradas e saídas em Janeiro. Ou pior ainda: em muitos casos ficou a sensação de que, a ter havido ambição, foi a de pessoas a encherem-se, e não do Belenenses.
Às vezes, quando oiço aquelas declarações, penso-me se dormi um longo sono, sem reparar o que se passava no Belenenses. Será que contratámos o Cristiano Ronaldo e o Messi, o Xavi e o Iniesta, o Figo e o Van Persie, o Ronaldinho e o Lampard... e eu não dei por nada?!
Nas últimas décadas, quais os jogadores de nome feito (as tais loucuras de querer tudo...) é que contratámos? Esqueçamos os Betos e os Catanhas, jogadores com nome, sim, mas que vieram (ou voltaram) no ocaso da sua carreira. E então? Recuando mais de quinze anos, só me lembro de dois: o Silas e o Meyong. Ninguém mais, absolutamente ninguém!
Se gastámos muito, não foi por ambição mas sim por incúria, "toinice" ou coisa pior...
Detesto as raramente desinteressadas versões oficiais, incluindo as da Comunicação Social, que dizem o que devemos e temos que pensar, os slogans prontos a consumir para quem detesta pensar pela sua cabeça. A de vivermos acima das nossas possibilidades por causa da mania das grandezas é uma delas, de motivação castradora.
Olhem à volta, vejam o que se diz noutros clubes, e reparem que o que nos vem caracterizando é o cinzentismo, o conformismo, a mediocridade. Porque termos tão pouca gente? Será só pela questão dos resultados? É óbvio que não. Só por preguiça podemos continuar a pensar e a repetir uma treta dessas, completamente desmentida pelos factos.
A nossa maneira de estar é o oposto da ambição. É a prática do "talvez chegue", do "então pronto, só mais uma pinguinha". E as nossas equipas tendem, naturalmente, a jogar assim. À pinguinha. O empate já é bom; um golito deve chegar... mesmo os anos de boas classificações nunca mostraram uma equipa mandona e ambiciosa a sério, antes tiveram muito de empates e vitórias tangenciais.
Por isso, onde está ou esteve o querer tudo? Não faço ideia. E a ausência de tal é ainda mais flagrante, tendo em conta que se nos útimos tempos nos afundámos, o estatuto que tínhamos era elevado. Só que não nos coadunámos com ele: a nossa mentalidade tornou-se demsiado morninha. É o toca a despachar, como ainda vimos na última AG - não quero saber, não quero ouvir, vamos lá votar esta "m...", seja lá o que for, que eu quero ir-me embora, não me façam dores de cabeça.
"Estamos a ser ultrapassados por clubes que têm menos de metade do que nós temos", dizia Acácio Rosa há 20 anos. O que não seria preciso dizer agora?...