sábado, 3 de novembro de 2012

RAZÕES DE UMA ABSTENÇÃO

Vai amanhã ser discutida em Assembleia-Geral Extraordinário do Clube de Futebol "Os Belenenses" (sou daqueles que consegue dizer o nome inteiro sem se confundir...) a possibilidade de aquisição da maioria do capital da nossa SAD por determinado grupo de investidores - "determinado", é como quem diz, porque não se sabe exactamente quem são. Vão-se sabendo algumas coisas...
Salvo qualquer coisa muito forte que me faça mudar, vou-me abster. Abstenção activa, diga-se, porque vou estar presente e vou votar - só que votar abstenção.
A abstenção é um não-voto, dirão alguns. Em parte, sim. Mas ao menos, faz número. Os nossos números de participação são fraquíssimos e, ao menos não contribuo para isso, pelo contrário.
No entanto, só posso abster-me e explico porquê: não há nada que me tenha feito alterar a convicção de que o Belenenses caminha para a morte. Amanhã vamos apenas escolher entre uma morte na nossa casa envelhecida, empobrecida e com poucos cuidados sanitários; ou uma morte num hospital limpo, equipado e frio. Entre uma e outra...
É a lógica consequência da persistente traição instalada no Belenenses... desde há tanto tempo, que até tenho medo de saber exactamente desde quando...
Se não fosse triste, eu sorriria dos que se levantam armados de pomposa seriedade para questionar as subtilezas jurídicas e se iremos ter menos ou mais cinco tostões da quotização ou dos jogadores da formação, e mais o saldo contabilístico Clube-SAD. Para mim, tudo isso não passa de amendoins. Por acaso, sou licenciado em Direito (ao que não ligo), mas com base em tal apenas me interessa dizer que as cláusulas contratuais são cumpridas quando há força para levar ao seu cumprimento. E nós não a temos...
De qualquer modo, isso para mim é secundário, derivado de um problema maior: é que nós, fruto da desertificação e da cultura de palermice contentinha-resignada de há muitos anos, não temos força para nada. Não nos respeitam, porque não nos soubemos dar ao respeito. Só mostramos os dentes ao muito fraquinhos (será isso a tal diferença?).
E por conseguinte, para além do $, que é a única coisa em que, numa cegueira unilateralista, sabemos pensar, estaremos sujeitos a tudo, incluindo todas as humilhações morais de uma satelização do clube a interesses alheios, por uma coligação da santíssima trindade lampiões-lagartos-andrades, que alguns até acham "gira" mas que a mim me "sabe a merda". Mais triste: quando tal acontecer, ainda haverá aplausos - e recriminações a quem sentir vómitos.
Estamos mais que indefesos contra isso: estamos totalmente desprevenidos. Estive naquela Assembleia dos vencidos da vida (foi o que senti) na 4ª feira, e, como em outras, as perguntas sempre foram à volta do $. A ninguém ocorreu perguntar que objectivos desportivos teriam os tais investidores. Normal: desde há 20 anos que oiço falar em projectos imobiliários e financeiros mas nunca ouvi falar em projectos desportivos. Nem em ter adeptos (diferente de sócios). Quanto a voltar a ter mais adeptos, repete-se o primarismo de que "para isso só com vitórias", apesar de os factos sucessivamente desmentirem essa tese de forma brutal. Mas pensar noutra coisa dava dor de cabeça...
Que respeito merecem uns gajos (nós) que gostam de parecer a menor quantidade possível e que só acenam a mão estendida para entrar o "guito" (palavra tão adorada no Restelo. Digo Restelo, porque eu posso dizer "azuis de Belém" mas nunca o redutor estribilho jornaleiro de "Azuis no Restelo")? Nenhum! Estamos à mercê de tudo mas achamo-nos espertos. Pior: como um consócio há pouco dizia, e bem, qualquer "imberbe" no Belenenses, que daquilo que somos conhece dois ou três anos e meia dúzia de frases feitas, dá lições de modernidade. É nesta esteira de ligeirezas, de modas e de slogans acéfalos, sempre mais tontos e sempre aplaudidos da mesma forma, que o Belenenses vai morrendo um pouco todos os dias - mesmo todos os dias.

E a prova disso não está essencialmente nas contas, nem sequer nas tabelas classificativas. Nem no Zé Pedro, nem no Avaí. Está nas bancadas. O problema, justamente, é que se tem horror a essa expressão...

Aos que vão já pôr a resposta fácil de "já não há romantismo" e "já não há amor à camisola", aminha resposta é: mas eu não falei de tais coisas. Falei de RESPEITO. De ser respeitado. De merecer ser respeitado. E isto ainda há, e sempre haverá...

Sócio nº 4720 do Clube de Futebol "Os Belenenses"