quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A FESTA... DO PORTO

Eramos os 4 grandes: o Belenenses, o Benfica, o Sporting, o F.C.Porto. Foi neste quadro que eu nasci. Os jogões eram com os outros 3 e só com os outros 3 (ou, então, com equipas de outros países).
No entanto, os jogos com o Porto nunca tiveram para mim o mesmo palpitar, a mesma carga instintiva, a mesma importância, que as partidas com os outros dois.
Com efeito, para mim, que vejo com tanto ou mais interesse as bancadas (leia-se, as pessoas nas bancadas e as suas reacções) do que as movimentações dos jogadores (bem sei que, nisto, estou no clube errado e até oposto…), o azul (nós) e o azul e branco (eles) não tinham o contraste distintivo bem evidente nos confrontos com verdes e encarnados.
A esta razão, acrescia outa: no início dos anos 70, quando me tornei consciente do mundo do futebol, Belenenses e Porto eram clubes da mesma igualha. Passava uma década sem os portistas ganharem no Restelo. Vinham relativamente poucos adeptos seus ao nosso Estádio. Num parêntesis, diga-se que em 1970, no tempo de Meirim, o Belenenses quase encheu metade do Estádio das Antas. Quantos podem dizer isso?
Mas adiante: naquele tempo, o Benfica reinava, e o Sporting era o contraponto (quebrava de 4 em 4 anos a hegemonia lampiã). O Porto e o Belenenses eram os outros grandes, embora como fidalgos longe dos melhores tempos, que às vezes até se deixavam ultrapassar (não no conceito geral mas em épocas pontuais) por Académica e Vitória de Setúbal, então equipas da moda. Talvez possamos ilustrar isto com o primeiro de todos aqueles cadernos de início de época, editado em 77/78 pelo jornal A Bola, e que conservo. O Belenenses era (como ainda é) o 4º, mas bem em cima do Porto; e com mais do dobro dos pontos do 5º, no acumulado dos Campeonatos. Em massas associativas, eramos também o 4º; mas com o dobro dos sócios, por exemplo, do Vitória de Guimarães ou do Braga.
Portanto, ganhar ao Porto não era nada de mais. Além disso, Pinto da Costa estava a transitar de total desconhecido para figura em ascensão (fim da década de 70). Os presidentes da FPF eram indicados rotativamente por Benfica, Sporting e Belenenses. Factos são factos. O Benfica e o Sporting, mas muito nitidamente o Benfica, dominava(m) as arbitragens. Não tinha chegado o tempo dos Guímaros, dos Calheiros, dos Veiga Trigos e outros. Era o tempo dos árbitros que diziam a jogadores do belenenses que deviam ter vergonha de vestir a nossa camisola, e que festejavam golos do Benfica dentro de campo, era o tempo do Humberto Coelho como jogador-fiscal de linha a levantar o braço para o árbitro assinalar fora de jogo aos adversários dos lampiões, era o tempo do Adolfo e do Malta da Silva, laterais daquele clube, que davam sarrafada de criar bicho nos adversários mas a culpa de estes caírem era sempre do mau estado do terreno. Era o tempo em que milhares de lampiões invadiam o relvado da Luz a meio do jogo para agressões e ainda assim o Benfica recebia um ponto...
Era também o tempo em que os jogos eram todos ao domingo à mesma hora mas em que quando havia um Benfica-Sporting, ninguém podia interromper de um outro campo sequer para informar de um golo, ou era repreendido com a emissão no ar. Era um menino mas lembro-me como se fosse hoje: estávamos na época de 72/73. O benfica já era campeão, e o Belenenses estava (e acabou) em 2º. O Sporting terminou em 5º. Pois, no dia do Benfica-Sporting, só bem depois de acabarem este jogo é que consegui saber o resultado do Belenenses. A meio do Benfica-Sporting, um locutor interrompeu doutro estádio, para gritar um golo do Leixões. Levou uma rabecada pública, com reiterado aviso para os restantes, pelo atrevimento de interromper o irrelevante Sporting- Benfica.
Conto isto, porque as coisas mudam muito  e há quem não saiba ou não se lembre daqueles tempos. Hoje o Porto está repimpado nos “três” (nunca na vida, nem sob tortura, disse ou direi “três grandes”, até porque não nasci no tempo em que os três grandes eram Belenenses, Sporting e Porto, e depois Belenenses, Benfica e Sporting). Os seus adeptos, sobretudo os mais jovens, os Miguéis Sousa Tavares deste mundo, tratam-nos com desprezo, ignaros ou esquecidos do tempo em que eram gozados em todo o lado, e em Lisboa tinham no Belenenses os únicos amigos (amigos, não súbditos, note-se bem!).
Mas eu não esqueço. E por isso, até percebi reacções iniciais do Porto para sacudir um sistema que então lhe era adverso. Nisso, Pinto  da Costa teve mérito e sagacidade. E afinal, o Benfica nem nunca precisou de comprar árbitros e jornalistas: metade ou mais são seus adeptos, e fazem-lhe graciosa e despudoramente os jeitos e a propaganda. Já nesse tempo havia os Fernando Guerra e os Querido Manha, os Pedro Henriques e os Bruno Paixão.
Com o passar dos anos, das décadas, da reacção normal e compreensível, o Porto foi crescendo em poder até ao nojo. E a malta fraca (porque é fraqueza) adora é quem ganha. Hoje, até em Lisboa, há muitos que “só querem ver Lisboa a arder”. Não que isso de Lisboa ou do Norte me incomode o que seja. Não sou dado a tais provincianismos e guerras de quintal. Para mim, o Belenenses tem sede em Lisboa, ou melhor, em Belém (não, não é no Restelo; é em Belém!) mas é de Portugal e do mundo inteiro.
Vem isto a propósito do Belenenses – Porto do próximo sábado. Estar na 2ª divisão, para mim, é um pesadelo. Nem me venham com a conversa de que “sou do Belenenses com muito orgulho, esteja na 1ª ou nos distritais”. Claro que sim, que sou. Mas eu também sou eu se só fizer coisas mal feitas, sem que por isso deixe de detestar fazê-las. Regressar à 1ª é, pois, um enorme  alívio, e ter novamente um jogo contra um dos grandes rivais históricos, no nosso estádio, deveria ser uma festa.
Só que no Belenenses, infelizmente, já tiraram tudo aos (seus) adeptos e o futebol só já é negócio puro e duro, sem respeito por nada nem ninguém. Estamos sob sodomização continuada e às claras (e há quem goste!). Neste jogo atingiu um pico de requinte mas virá pior. E sim, virá também quando jogarmos, por exemplo, com o Benfica. A festa, afinal, vai ser da Casa do Porto de Lisboa. É a grande reunião anual de portistas, no (agora) “seu” Restelo. E ainda temos que levar com lagartos a querem porradinha com os andrades, e lampiões a quererem que o Porto perca pontos (a mim, claro, só me interessa que o Belenenses os ganhe).
Vou ver o jogo mas sem “aquela” alegria. Sei que dignos Belenenses-mesmo-Belenenses se recusarão a ir. Não os censuro, entendo-os muito bem, até porque já tive reacções semelhantes. Em todo o caso, respeitosamente, direi que me parece melhor que fossem. A nossa presença é uma posição, um protesto, uma resistência face àqueles para quem somos indesejados e uma espécie a extinguir de vez.
Do mesmo modo, não sou contra a homenagem ao Pepe. O Pepe merece todas as homenagens e sou sensível a todas. Na minha opinião, claro. Sou agreste e sempre acutilante quando se trata do Belenenses, mas é por o querer; por o querer amado ou respeitado. Ainda no sábado, eu que não gosto do Sporting, me sensibilizei com a atitude correcta dos seus adeptos no minuto de silêncio pelo Pai de um jogador nosso, e até os aplaudi silenciosa e discretamente. Sempre que afrontarem o Belenenses (sem razão), saltarei como uma mola. Em contrapartida, quem respeitar o Belenenses a sério (nada daquelas chachadas do “são tão simpáticos, coitadinhos) terá em mim um amigo leal e para sempre.
No entanto, há um “se” e um “mas”: O Pepe jogou no Clube de Futebol “Os Belenenses” e não na SAD, muito menos nesta SAD. A sua morte, por envenenamento, aos 23 anos, foi uma tragédia em muitos aspectos, sobretudo pessoais. Mas foi-o também clubística. Em 5 épocas de Pepe, o Belenenses foi 2 vezes Campeão de Portugal e 3 vezes Campeão de Lisboa. Nenhum dos "três" fez tal. Iam começar os campeonatos Nacionais. Na década ou dúzia de anos de carreira que normalmente teria Pepe, quase certamente o Belenenses teria conquistado títulos que, assim, foram para o Benfica, o Sporting, o Porto, os clubes da malta da SAD. E então, para concluir, na homenagem não tem que estar ninguém da SAD mas sim da Direcção do Belenenses, clube onde o Pepe jogou e a quem pertence o monumento que lhe foi erigido.